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Deuses da Lusitânia













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ENDOVÉLICO - é sem dúvida o mais conhecido e estudado deus lusitano. Muitos foram os autores que o analisaram e muitos foram os aspectos focados. Tal como a origem dos lusitanos, também a origem deste deus originou acaloradas discussões entre autores.
Quanto ao nome do deus, José dEncarnação, na sua obra Divindades Indígenas sob o Domínio Romano em Portugal , dá-nos o parecer de vários autores. Leite de Vasconcelos fez o levantamento de três formas diferentes de representar o nome que ora era Endovellico, ou Endovollico ou ainda Endovolico, como resposta a isto o mesmo autor diz-nos que o mais provável é que uma das formas fosse anterior às outras. S. Lambrino em 1951 já nos apresenta outras formas do nome, sendo que encontrou o nome representado por duas vezes como Endovelicus, três vezes como Indovelicus, duas como Endovollico, cinco como Endovolico e uma como Enobolico, o que se deveria ao facto do nome do deus ser na sua própria região representado como Endovellicus e as outras inscrições serem provenientes de outros lugares com dialectos ou línguas diferentes. Estes dois autores afastam a ideia do facto se dever apenas a um erro do gravador da inscrição.
Segundo José Leite de Vasconcelos , a origem do nome deste deus é provavelmente céltica, Endovellicus viria assim do celta Andevellicus que significaria Deus muito bom. Mas embora a origem do nome possa ser céltica, a verdade é que o deus podia não o ser, os celtas, tal como os romanos costumavam respeitar e adoptar as divindades das regiões que invadiam e assim Endovélico podia ser na realidade um deus indígena celtizado.
Quanto às suas características, Endovélico era uma divindade da terra, da vegetação e dos animais, deus infernal e com o poder de curar.
O porco era o animal consagrado a Endovélico, o que para Leite de Vasconcelos era uma prova deste deus ser uma divindade ligada ao culto da terra, o autor comparo-o assim à deusa romana Tellus a terra, a quem também era sacrificada uma porca. Outro facto que para Vasconcelos prova que Endovélico estava ligado ao culto da terra, é o de existir um oráculo dentro do seu templo que era consultado através da interpretação de sonhos tal como acontecia na Grécia onde os sonhos eram considerados filhos de uma deusa cujo nome significaria terra. Ao fazer a comparação do deus lusitano com esta deusa grega, Vasconcelos aponta ainda o facto do oráculo desta se destinar sobretudo a questões relacionadas com a saúde, apresentando assim outra faceta de Endovélico que seria também um deus curador. A provar este facto numa das aras a ele oferecidas, tomamos conhecimento que Caio Júlio Novato cumpria desta maneira um voto feito a Endovélico pela saúde da sua querida Vivennia Venusta. Contudo, Scarlat Lambrino nega esta faceta do deus, alegando que nada indica que o oráculo fosse de natureza médica e aponta também o facto de não existir qualquer fonte de água medicinal perto. Outra questão discutida por estes autores é o culto ao deus Esculápio ou Asclépico, filho de Apolo e deus da medicina entre os gregos e os romanos que não só curava os doentes, como também ressuscitava os mortos. O culto a este deus para Scarlat Lambrino era mais uma das razões para que Endovélico não fosse um deus relacionado com a medicina, pois como ele diz Seria difícil haver duas divindades médicas, poderosas e com prestígio na mesma região. Vasconcelos por seu lado não hesita em comparar estes dois deuses como semelhantes.
Ao seu santuário, onde faziam os seus pedidos, deixavam a suas oferendas e consultavam o oráculo , acorriam gentes de todas as condições sociais tanto da região, como das regiões vizinhas e de outras mais afastadas onde a fama do deus teria possivelmente chegado.
Para além de auxiliar os vivos, Endovélico era também um deus que assegurava aos seus fiéis depois da morte uma vida eterna feliz. Numa das mais conhecidas aras dedicadas a este deus vemos representadas para além do porco ou javali, uma palma e uma coroa de louros símbolos de imortalidade, sendo o loureiro uma das plantas que permanece verde no Inverno. Estes símbolos esculpidos nesta ara aqui presente, são já um sinal do culto romano a este deus.
Este culto provavelmente pré-céltico estendeu-se até à época romana, altura do seu apogeu, existindo ainda no século III d.C. Acabou por ser cristianizado por volta do século V, tendo sido substituído pelo culto a S. Miguel Arcanjo que tinha as mesmas características curativas de Endovélico. Do século XVII, temos o conhecimento da existência de uma igreja dedicada a S. Miguel construída no sítio do antigo templo lusitano-romano.
Muitos dos monumentos dedicados a este deus, terão sido destruídos pelos primeiros cristãos. Este deus não foi apenas adorado no Outeiro de S. Miguel, foram encontrados vestígios do seu culto em outros locais da Península.

















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ATÉGINA- Deusa natural de Turóbriga, onde teria um santuário, cidade que segundo Plínio se situava na Beturia Celtica, região na margem do rio Guadiana. Conforme Leite de Vasconcelos , este culto estendeu-se depois a outras localidades conforme o provam diversas inscrições, nomeadamente Elvas, Mérida, Vila Viçosa, entre outras do alto e baixo Alentejo e oeste de Espanha, abrangendo assim regiões da Lusitânia e da Bética.
O seu nome que foi cuidadosamente estudado por José Leite de Vasconcelos no segundo volume da sua obra Religiões da Lusitânia , seria de origem celta e significaria renascida, ou seja, esta era uma deusa ligada ao culto da fertilidade que tal como os frutos da terra que renascem todos os anos, também desaparecia sazonalmente no submundo para poder renascer.
Não se sabe ao certo qual a origem do seu culto, provavelmente era uma deusa indígena que foi primeiro celtizada, tal como indica o seu nome e depois romanizada. Esta deusa acabou por ser conotada pelos Ibero-Romanos a Proserpina e a Libera. Com Proserpina, tinha a semelhança de ser deusa da fecundidade dos campos e dela acabou por ganhar o carácter infernal que tinha como mulher de Plutão. Libera por seu lado era a primitiva deusa da fecundidade agrária, irmã de Liber (Baco). Atégina acabou assim por ficar associada a estas duas deusas do panteão romano.
Para além do facto de ser uma deusa da fecundidade, ligada ao renascimento da natureza e ao germinar das sementes, o seu carácter infernal fazia com que se lhe fossem consagradas devotio. A devotio era uma cerimónia religiosa que tinha como objectivo fazer mal a alguém convocando através de fórmulas as divindades infernais para que se apoderassem dessa pessoa. Esta devotio podia ir da simples praga até à maldição e por vezes tinha mesmo como objectivo a morte.
José d Encarnação fala-nos da opinião do Prof. T. Scarlat Lambrino sobre esta deusa, o qual atribui também a Atégina características de deusa infernal dando-nos o exemplo de uma inscrição de devotio na qual se lê per maiestatem tuam te rogo, oro, obsecro uti vindice ainda segundo Lambrino Atégina e Endovélico, formavam um par divino que reinava nos Infernos.
Em algumas inscrições, esta deusa acabou também por aparecer ligada à medicina, sendo apelidada pelos dedicadores de servatrix ou seja conservadora (da saúde dos homens).
Tal como ao deus Endovélico, também era vasto o grupo de pessoas que se dirigiam a Atégina, escravos, homens livres, indígenas, romanos
Em algumas inscrições o nome da deusa aparece apenas representado por um A, o que mostra a familiaridade com esta deusa e vários são os epítetos a ela atribuídos, tal como dea, domina, sancta, invicta, servatrix provando assim a sua importância.
O bode e a cabra eram os animais consagrados a esta deusa que era uma divindade tríplice, da fecundidade, dos infernos e da medicina.
















TREBARONA- Segundo Arbois de Jubainville, investigador da cultura celta do princípio do século XX que foi consultado por José Leite de Vasconcelos acerca deste tema, Trebarona significava segredo da casa. A partir desta explicação Leite de Vasconcelos e Scarlat Lambrino, deram novamente dois pareceres diferentes sobre esta deusa. Para Vasconcelos, Trebarona começou por ser um penate, ou seja um génio doméstico que habitava uma casa e que protegia os seus moradores, passando mais tarde a ser uma deusa guerreira. Esta nova característica resultaria de uma extensão do seu culto.
Este autor foi quem primeiro estudou uma inscrição referente a esta deusa cuja ara terá aparecido na propriedade de um amigo seu, o Dr. João Baptista de Castro, no Fundão, sendo que nesta mesma propriedade encontrava-se igualmente uma ara dedicada a Victória, deusa guerreira romana, não se sabendo contudo ao certo qual a proveniência destas duas inscrições.
Estas duas aras pelo que se pode ler, eram do mesmo dedicador, Tongius, filho de Tongetamus. Vasconcelos acabou por associar estas duas inscrições à mesma deusa. Trebarona seria no seu parecer uma deusa lusitana que com a chegada da religião romana foi associada à deusa Victória, passando os dois cultos a serem celebrados em paralelo. Vasconcelos, contudo não dá este seu parecer como absolutamente correcto, pois para isso era necessário que aparecesse uma inscrição onde os dois nomes estivessem associados.
S. Lambrino, diz-nos que Trebarona não seria apenas uma simples deusa familiar, mas sim uma deusa protectora de uma tribo ou região, pois treb em irlandês e gaulês antigo tem o significado de cidade e em bretão de aldeia. Lambrino acabou por associar esta deusa aos Igeditanos. Para este autor Trebarona não tinha de ser associada forçosamente a Victória, o que teria acontecido no caso destas duas aras era uma romanização do dedicador, Tongius e não da deusa.
Hoje já se conhecem mais testemunhos arqueológicos tanto de Trebarona como de Victória nas Beiras e na Estremadura espanhola, o que vem reforçar a tese de Vasconcelos que o culto a estas deusas estaria associado.

OUTRAS DIVINDADES- Quer tenha sido pela sua beleza, quer tenha sido pela calma que transmite para quem as olha ou pelas suas propriedades medicinais, a verdade é que o lusitano consagrou hinos às suas fontes, adorou-as e ergueu-lhes altares e santuários.
Em Braga, encontra-se um dos monumentos mais importantes dedicado ao culto das águas. Conhecido pelo nome de Fonte do ídolo este monumento foi detalhadamente estudado e descrito por José Leite de Vasconcelos no segundo volume da sua obra já citada . Este monumento que data da época romana é a consagração de um culto anterior a esta época e consiste numa rocha apegada a uma fonte com inscrições latinas e esculturas dedicadas a Tongoenabiagus. Tongoenabiagus, seria uma divindade tutelar das fontes cujo nome, segundo dArbois de Jubainville, significaria Deus da fonte pela qual se jura. Este monumento é composto de duas inscrições e de duas figuras esculpidas. Na primeira inscrição que se encontra junto da primeira figura pode-se ler que: Celico Fronto natural de Arcóbriga, Ambimogido, fez esta obra. A figura adjacente a esta inscrição representa um homem barbado de pé, envolto em roupa ampla e comprida de estilo romano que olha de frente que e que sustenta na mão um objecto que Vasconcelos identificou como um cesto de fruta. Vasconcelos reconheceu esta figura como sendo a do dedicador mas outros autores preferiam identificá-la como uma imagem da própria divindade fontanária. A outra parte do monumento é constituído por um nicho na qual se encontra uma imagem de uma criança, sendo esta imagem para Vasconcelos uma representação de Tongoenabiagus, juntamente com uma inscrição que identifica o nome do ídolo a quem o monumento era dedicado: TONGOE NABIAGOE.
Bormaico é outro dos deuses das águas de quem se encontraram consagrações. Seria um deus ou génio tutelar das águas termais cujo nome significaria Faço ferver, imagem associada às águas borbulhantes das nascentes. Seria um deus da zona de Vizela com poderes curativos, a cujo santuário acorreriam doentes de reumatismo, doenças de pele, entre outras, levando ex-votos tal como acontecia no santuário de Endovélico.
Do culto das águas temos ainda o culto a Návia ou Nabia que seria possivelmente uma divindade dos rios. O culto a este teónimo foi encontrado em várias regiões distintas, todas dentro de território lusitano, o que se deve ao facto de Návia, significar água corrente. O culto seria assim uma veneração à água em si.
Foram encontradas outras inscrições de ídolos de fontes e águas, mas serão estes três os mais importantes.
Quanto aos Lares, são várias as inscrições encontradas em Portugal dedicadas a estas divindades, os Lares eram na crença romana, divindades que protegiam não apenas as casas, os campos e as cidades mas também os seus habitantes. Nas casas romanas era habitual existirem pequenas estátuas destas divindades junto às lareiras. Segundo Leite de Vasconcelos , existiam diversos lares conforme a situação, Lares viales para os viajantes, Lares vicorum para os bairros, Lares compitales para as encruzilhadas. Nos textos epigráficos por ele estudados, estas divindades recebem, na maior parte das vezes, o título latino de Lares e por outras ainda os títulos de dii, de Nymphae ou de dii deaeque e numiae. As Ninfas por sua vez pertenciam à classe dos espíritos divinos femininos que povoam os bosques, as montanhas e as águas, mas eram sobretudo habitantes das fontes.
Sendo os lusitanos um povo de guerreiros é natural que tivessem no seu panteão várias divindades de carácter guerreiro que os protegessem aquando das suas emboscadas e batalhas. No capítulo anterior já fiz referência a uma destas divindades, Trebarona, divindade protectora de uma região cujo culto se terá expandido e ganho o cariz de guerreira. Com esta faceta temos ainda conhecimento de outros deuses, nomeadamente Runesocesius, que seria uma provável divindade guerreira da zona que hoje corresponde a Évora e cujo nome teria o significado de Deus armado com um dardo.
A norte do Tejo, os lusitanos segundo Tito Lívio e Estrabão, adoravam Ares Lusitano, a quem sacrificavam um bode e um cavalo de guerra. O facto de sacrificarem um cavalo, animal muito precioso para os guerreiros tem um significado simbólico muito forte, o cavalo seria a própria representação do guerreiro que se eleva aos céus pelo seu triunfo e sacrifício.

Temos ainda conhecimento de uma divindade de nome Mars Cariociecius, divindade local da Galiza, sendo que Cario teria o significado de Corpo de Tropas, este seria pois um deus a quem todo o grupo guerreiro prestaria culto antes da batalha.